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Desejo

Imagino um singelo cenário, sentados a lareira a ouvir o simples estalar da madeira, sinto um crescendo desejo em te matar num beijo, de te envenenar do meu desejo e te deixar num estado de transe profundo. Abrir-te a pele e descobrir-te por dentro. Ouvir-te gritar onde ninguém te possa ouvir. E deixar-te desvanecer sob o meu feitiço até que o teu coração pare.
E no fim, ver-te dormir indefesa, apreciar-te em pele, ouvir-te a respirar suavemente e deliciar-me a elaborar, docemente, a tua próxima morte.

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O Solitário

Em mim habita muito mais que uma pessoa, uma delas permanece no anonimato, não gosta de se expor. E como essa pessoa venera a solidão, adora música melancólica e se sente bem quando oprimida pelo sofrimento. Eis o Solitário.


Tem a estranha capacidade de emergir em público, sem que ninguém se aperceba, a solidão não é para ele um espaço onde apenas ele se encontra, mas sim, qualquer situação que lhe faça sentir toda a sua insignificância. A incompreensão reforça-lhe o ego. Quando incompreendido, sorri, faz um gesto carinhoso e desvia a atenção.
Após uma fase conturbada, o Solitário tem hoje mais influência que qualquer outro. Devo-lhe a descoberta do gosto de viajar sozinho. E, como se aprecia, como chama muito mais a atenção, como ganha importância qualquer pormenor quando estamos sós.
Obrigado Solitário.

Silêncio ensordecedor

Um eco viajou pela falésia durante umas frações de segundo, sem destinatário nem propósito.

Não há dia que não me lembre da experiência. Olhar do alto, para o lago que se estendia ao longo de quilômetros, sentir toda a ausência de vidas num silêncio ensordecedor. Mais potente ainda que a leve brisa que se fazia sentir. Ao mesmo tempo sinto o vento empurrar-me levemente, as árvores dançarem em movimentos lentos e uma paz imensa.



Solto um grito, sem destinatário nem propósito.
Por momentos posso dizer que sou infinito.


Quadro em palavras

Era uma vez uma flor. Vivia num planalto difícil de alcançar, mas sem dúvida que era de uma beleza singular. Era vida, força, juvenilidade, em pé firme, caule alto e forte, com pétalas de cor pura. Dançava ao som dos pássaros, transparecia uma felicidade extrema e era capaz de se destacar por entre todo aquele imundo lugar coberto de más intenções.
No entanto, por obra do acaso, a folhagem da árvore que sempre ali esteve tapou-lhe o seu bem mais precioso, a razão da sua existência esplendorosa: o Sol. A flor entrou em decadência, murchou, secou e preparava-se para morrer.

Mas no alto da arvore um pássaro cantou e encantou, despertou o interesse da flor que num último fôlego arrebitou. O pássaro saltava de ramo em ramo até que de súbito algo se passou.
O pequeno ramo da árvore vergou ao peso do pássaro, os raios de sol trespassaram de novo a árvore incidindo com especial atenção sobre a flor. Deu-se uma explosão de felicidade, brilho e cores. A flor havia encontrado novamente o motivo…

Rusga rápida

Acordo. Levanto-me e tomo banho. Olho para o céu. Encho o peito de vontade e adrenalina e parto na aventura, sem preparação. Chegado, inspiro a solidão e mantenho firme a máquina fotografica. Ao longe o automóvel fica aberto transportando sons citadinos. Caro momento, captei-te, roubei-te da realidade e agora és meu.


Vem

Não te procuro, mas por vezes na solidão dos pensamentos consigo constatar... já lá vai tanto tempo e não te consigo encontrar. Não te peço perfeição, apenas um misto de astúcia e bons valores. Já senti quando de rompante dás um ar de tua graça, na forma de um rosto, nascendo dentro de mim uma esperança que se desvanece nas entranhas da realidade.



A beleza está dentro de ti

Tenho sentido que andas estranha. E sem saber, vou arriscar dizer para não te deixares cair no poço do teu auto-julgamento negativista, baseado nos teus defeitos supérfluos. Sim, porque a opinião mais importante é a tua. Por muito que sintas isso desvalorizado, tens o dom de ser genuína.



Lembra-te, por mais que a sociedade modele esse conceito, a verdadeira beleza está dentro de ti.
Aproveita a vida, valoriza-te! Porque tu és bonita.


Experiência, Futuro e Esperança

A ideia de suspense que a vida nos reserva, tem muita beleza. A incapacidade de prever o futuro é um dom. Permite que conceitos como a esperança, que nos torna optimistas, existam. Ser optimista permite viver o dia a dia com mais prazer, e consequentemente, ser-se mais feliz.

O passado confere-nos experiência, a experiência torna-nos mais certos das nossas decisões no presente. No entanto, deixei de acreditar que a experiência ajuda a prever o futuro. O bom senso diz-me que ganhámos mais sensibilidade para evitar determinados caminhos, mas nada se sabe sobre o caminho que se escolhe.

No fundo, não há ligação directa entre o futuro e a experiência. A experiência é como conduzir um carro no escuro com os faróis voltados para trás. Sabemos tudo que se passou e nada do que virá.



Momento Eterno

O día é como mel, evidenciando-se por um sol que, em arrojado esforço antes de se esconder, aquece o final da tarde, iluminando com ternura e em tom laranja a areia da praia.

Observo-te mirando o horizonte a contemplar o espectáculo, deixando um rasto de sombra com o triplo do tamanho do seu criador. E ver um brilho nos teus olhos, num sorriso disfarçado em felicidade.

É um momento.